quinta-feira, 29 de julho de 2010

Nascido Para Matar

Como de Stanley Kubrick, não se pode esperar nada menos que genial, ele não nos decepciona em mais um filme de guerra, na sua pouco extensa filmografia que consagra sua brilhante carreira de quase 50 anos como cineasta. Conhecido por ser extremamente exigente e perfeccionista, Kubrick sabia muito bem o que queria e como alcançar o que buscava em seus filmes, o que demandava um árduo trabalho, tanto de sua equipe técnica quanto de seus atores. Mas se Stanley Kubrick, era famoso por seu estilo de filmar, não se pode dizer o mesmo quanto ao seu estilo de filme. Kubrick brilhou, em diversos gêneros cinematográficos, drama, suspense, romance, guerra, ficção científica, ação, aventura e tantos outros, sempre com a mesma competência.

“Nascido Para Matar” (Full Metal Jacket), de 1987, o penúltimo filme do diretor, não é apenas um filme de guerra, é uma crítica a ela. Logo no início do filme, acompanhamos uma longa seqüência, bem ao estilo do mestre, em que vários rapazes têm suas cabeças raspadas, e nos deparamos com o primeiro choque da guerra, a perda da identidade. Identidade essa, readquirida posteriormente, através de humilhantes denominações, atribuídas aos rapazes pelo nada gentil Sargento Hartmann (R. Lee Ermey). As humilhações verbais acabam tornando-se brandas após o exaustivo treinamento e as nada éticas lições discorridas pelo fascista, machista e intolerante Sargento Hartmann, o que nos leva a segunda evidência da guerra, a alienação.

Aos poucos acompanhamos a transformação dos garotos em máquinas de guerra. Nem mesmo os que se mostram mais destemidos frente ao cruel treinamento, são reconhecidos ou menos humilhados. Como é o caso do recruta Joker (Matthew Modine) ou do inteligente recruta Cowboy (Arliss Howard). O que dirá o gorducho e medroso recruta Pyle (Vincent D'Onofrio), suas trapalhadas eram o principal motivo do constante desgosto do Sargento Hartmann, o que por sua vez, prejudicava o pelotão inteiro. E quando finalmente consegue destacar-se em alguma coisa, já era tarde de mais, a mente fraca do rapaz já tinha cedido aos infortúnios da guerra.

No segundo momento do filme a guerra começa de fato para quem sobrevive ao impiedoso treinamento para tornar-se um fuzileiro naval. E a guerra, todos dizem, é a do Vietnã, mas que diferença isso faz? Kubrick, mais uma vez é brilhante, pois não dá rosto ao inimigo, podendo essa, ser qualquer guerra, isso é indiferente na obra. Desde o começo esses jovens rapazes já foram derrotados, seja pelo estado, que prega o patriotismo e o amor à nação, mas é indiferente as precárias condições de vida de seus combatentes, ou pelo horror do treinamento que não ensina a morrer por um ideal que eles mesmos desconhecem, só a matar por prazer um inimigo cujo o único erro tenha sido nascer em um país que está em guerra contra os EUA .Esses rapazes já não são os mesmo da cena inicial do filme, e jamais voltarão a ser e assim acabam por tornarem-se seus próprios inimigos.

Utilizando-se de locações reais, as ruínas que são o plano de fundo das batalhas, não são cenográficas, Kubrick nos apresenta a guerra, como ela é de fato, sem engrandecer o nacionalismo americano, sem o patriotismo exacerbado corriqueiro em filmes do gênero. Entre tantas contradições que ironizam a própria guerra, como Joker, que usa um botton da paz no peito e um capacete onde se lê “Born to Kill”, que acabou intitulando a obra, quando esta foi traduzida para o português, ao invés do nome original “Full Metal Jacket” que faz referência ao tipo de munição usada no Vietnã, em que o projétil é revestido por chumbo. Há ainda a figura da mulher, que na hora da morte, reza, após ser tão subjugada durante todo filme, revela-se como a inesperada algoz do mesmo. E entre tantas perdas físicas, psicológicas, emocionais, ao fim da guerra fica a pergunta: Quem perdeu menos?


Salma Nogueira.

Mr. Vingança

Postura Opinativa

Pontapé inicial da chamada trilogia da vingança de Park Chan-Wook, Mr. Vingança (Coréia do Sul, 2002) retrata a história de homens - Ryu (Shin Ha-Kyun) e Dong-Jin (Song Kang-Ho) - cujos dramas vividos em suas famílias despertam neles a ira fomentadora de planos vingativos.
Dentro deste contexto, Mr. Vingança se apóia sobre dois pontos de vista que, por vezes, se confundem, quais sejam os do agressor e o da vítima. Na verdade, cada uma das metades de sua duração serve justamente para explicar o que leva cada um dos protagonistas a fazer a transição do papel de vítima para o de agressor, numa clara tentativa de humanização dos personagens caracterizadora de um pré-julgamento moralista - ausente nos mencionados Oldboy e Lady Vingança, filmes estes nos quais o que importava não era o motivo da vendetta, mas sim os meios justificados por fins caracterizadores de uma, em sentido contrário, desumanização de seus autores.
Logo, Chan-Wook peca pela postura opinativa adotada em Mr. Vingança, retirando do público, portanto, o ineditismo de tal tarefa. Neste passo, é bem provável que os roteiros de Oldboy e Lady Vingança tenham sido estruturados de maneira mais enxuta – mas não por isso menos densa – em reconhecimento as falhas indicadas e em conformidade com uma simplicidade que muitas vezes termina por se revelar mais eficiente - tal como ocorrera no também vingativo Ao Lado da Pianista (França, 2006).
Talvez
a perseguição contra Mr. Vingança fosse até reduzida caso se tratasse de um trabalho isolado, não inserido em um projeto maior, hipótese essa em que poderia ser mais festejado o apuro visual de um diretor hábil na construção de sequências esteticamente perfeitas, seja pela utilização precisa do som, seja pela capacidade de explorar a fotografia e, assim, captar beleza em paisagens nem sempre ricas – como no caso dos espertos enquadramentos produzidos na simples cena em que personagens sobem uma escada.
Contudo, como a produção há de ser necessariamente estudada em consonância com suas irmãs mais velhas, não há com deixar de concluir que este é, inconteste, o membro mais fraco da trilogia.

Dario Façanha (texto originalmente publicado em http://www.setimacritica.blogspot.com)
COTAÇÃO: ***
Ficha Técnica:
Título Original: Boksunen Naui Got
Direção: Park Chan-Wook
Roteiro: Lee Jae-Sun, Lee Mu-Yeong, Lee Yong-Jong e Park Chan-Wook
Produção: Lee Jae-Sun e Lim Jin-Gyu
Fotografia: Kim Byeong-Il
Elenco: Dae-yeon Lee (Choe) Se-dong Kim (Chefe de polícia) Seung-beom Ryu (garoto do rio)Ha-kyun Shin (Ryu)Kang-ho Song (Park Dong-jin)Du-na Bae (Cha Yeong-mi)Bo-bae Han (Yu-sun) Ji-Eun Lim (irmã de Ryu)
Direção de arte: Oh Sang-Man
Figurino: Shin Seung-Heui
Edição: Kim Sang-Beom
Duração: 129 min
Curiosidade: Após o cancelamento do remake de Oldboy, Mr. Vingança se tornou a bola da vez no que tange uma possível versão ocidental, afinal, os estúdios Warner adquiriram os direitos de refilmagem da obra e já escalaram o novato Brian Tucker para escrever o roteiro.

domingo, 25 de julho de 2010

Encontro Explosivo

Nonsense


Não há como falar de Encontro Explosivo (EUA, 2010) sem adentrar no aspecto da polivalência de seu diretor James Mangold, dada a facilidade com que o mesmo transita entre gêneros diversos. Seja pela via do western, como é o caso do magnífico Os Indomáveis (3:10 to Yuma, 2007), seja seguindo a cartilha do drama policial em Copland (1997), o cineasta demonstra uma costumeira eficiência ratificada, desta vez, pela aventura de espionagem que fomenta este texto.
Apoiado em um arremedo de roteiro Mangold abraça sem qualquer pudor o entretenimento como objetivo principal, revelando, neste passo, inegável esmero quanto a composição de cenas deliciosamente absurdas – como não se via desde o já longínquo True Lies (James Cameron, 1994).
É no absurdo, aliás, que reside toda a graça de um filme no qual ninguém se leva a sério. Assim, no que tange seus protagonistas, Tom Cruise e Cameron Diaz sintonizam-se plenamente ao clima do longa-metragem; enquanto o ator concentra sua atuação na simpatia cínica de seu sorriso, a atriz reencontra o timing cômico perdido ao longo dos anos.
Neste sentido, Diaz deita e rola ao encarnar o tipo avoado e desastrado, de forma que sua ausência é sempre sentida quando a cena em tela não é sua.
Graças a um time tão a vontade na condução de um blockbuster, Encontro Explosivo até pode vir a render uma sequência; afinal, não é em torno de uma mirabolante história que o filme se estrutura, o que, nesse caso específico, não significa uma crítica negativa. Basta, portanto, se deixar levar e divertir-se por conta dos absurdos da obra.

Dario Façanha
(texto originalmente publicado em http://www.setimacritica.blogspot.com)

COTAÇÃO - ☼☼☼☼

Ficha Técnica
Título Original: Knight and Day
Direção: James Mangold
Elenco: Falk Hentschel (Bernhard)Tom Cruise (Roy Miller)Maggie Grace (April Havens)Peter Sarsgaard (Fitzgerald)Paul Dano (Simon Feck)Marc Blucas (Rodney)Lennie Loftin (Braces)Jordi Mollà (Antonio)Cameron Diaz (June Havens)Viola Davis (Director George)Olivier Martinez, Nicole Signore, Jerrell Lee (Paul)
Estreia: 16 de Julho de 2010
Duração: 109 minutos

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Amor à Flor da Pele



“Amor à Flor da Pele” (In The Mood For Love) é a mais bela fotografia da grandiosidade e sutileza do cinema oriental. Essa película de 2000, dirigida pelo chinês Wong Kar-Wai (Amores Expressos, Cinzas do Passado), nos conta uma história que se passa na década de 60, protagonizada por um jornalista, o Sr. Chow (Tony Leung Chiu-Wai) e uma secretária, a Sra. Chan (Maggie Cheung Man-Yuk). Vizinhos que se mudam exatamente no mesmo dia e hora para uma tumultuada pensão em Hong Kong. Ambos são casados, porém igualmente sozinhos, tentando manter ambos os matrimônio, sem a equivalente participação dos respectivos companheiros. Pelo menos é o que parece, analisando ambas as relações a partir do ponto de vista do Sr. Chow e da Sra. Chan.

A começar pela belíssima música de Nat King Cole, a qual se torna recorrente a partir de certo momento dos aproximadamente noventa minutos de projeção, não tanto quanto a igualmente bela “Yumeji’s Theme”, que acompanha os personagens do início ao fim da obra, nada no filme se apresenta com absoluta certeza. Tudo é incerto e questionável, por isso: “Quizás, quizás, quizás”... Em seguida vem a suspeita de que possivelmente o marido da Sra. Chan e a esposa do Sr. Chow, estivessem tendo um caso, a partir de evidências praticamente irrefutáveis e absurdamente coincidentes, porém completamente incertas. Ao Sr. Chan e a Sra. Chow, também não são dadas feições, de ambos só se ouve a voz e tem-se o conhecimento de que estão sempre viajando a trabalho. Eles podem ser qualquer um, tal articulação foi brilhantemente pensada para não desviar o foco dos protagonistas da obra.

A câmera parece estar sempre à espreita do casal que diz não querer cometer os mesmo erros dos cônjuges infiéis. Como se esperasse o exato momento em que esse tal amor visivelmente à flor da pele, extrapole toda e qualquer barreira e torne-se manifesto, causando até mesmo tensão no espectador, principalmente quando o encontro entre eles se dá em estreitos corredores ou em solitários quartos que de maneira nenhuma se tornam cúmplices de um envolvimento mais que amistoso entre os protagonistas. A Sra. Chan permanece inabalavelmente envolta em seus elegantes e polidos vestidos, enquanto o Sr. Chow continua invariavelmente engravatado, faça sol ou chuva, ambos sempre a imaginar e até mesmo encenar como a possível relação entre seus companheiros teria começado.

Wong Kar-Wai não foge aos moldes do cinema oriental, com a bela fotografia de Christopher Doyle e uma narrativa lenta e contida, de maneira a esconder o que é tão evidente, mas que talvez os personagens tentem negar para eles mesmos, para não se deixar trair por seus sentimentos. O amor continua à flor da pele e assim permanece mesmo com afastamento dos protagonistas, até porque não precisa ultrapassar esse limite e fica eternizado em tímidas trocas de olhares, nos sutis gestos de carinho trocados pelos personagens, na agradável companhia um do outro, nas breves conversas e longos momentos silenciosos. O sábio silêncio, sempre tão presente no cinema oriental, simplesmente porque, nada precisa ser dito, pois o sentimento mesmo que contido, é real.

Em meio a uma cidade super populosa, duas almas igualmente solitárias se encontraram e foram felizes em segredo. Segredo esse, que permanece eternizado no momento em que o Sr. Chow se dirige até um templo milenar, as ruínas de Angkor Wat, para contar um segredo, que, segundo a tradição, se fosse dito em um buraco e depois fechado com lama, lá permaneceria guardado, eterno. Quizás com o tempo esse segredo se torne apenas uma agradável lembrança, quizás um sonho, quizás um grande amor que podia ter sido, mas permaneceu eternizado.

Salma Nogueira.

*Texto dedicado a Imara Antunes.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Os Famosos e os Duendes da Morte

Roupagem Indie

Os Famosos e os Duendes da Morte tem sido sintetizado como filme de temática adolescente, conclusão esta um tanto quanto equivocada, visto que os questionamentos por ele levantados podem até surgir em tal fase da vida mas não necessariamente nela se esgotam.
Neste sentido, a sensação de clausura em um ambiente que não corresponde às expectativas físicas e materiais do protagonista funciona como tema central de um enredo permeado por dilemas paralelos envolvendo assuntos como sexualidade, morte e separação.
Em seu longa-metragem de estréia Esmir Filho esbanja competência ao adotar um tom poético, mas ao mesmo tempo sóbrio, que lhe permite lançar mão de um ritmo contemplativo, porém nunca estático, enfadonho, pretensioso.
Demonstrando pleno domínio da narrativa, o cineasta mescla de maneira invejável artifícios visuais que, embora não inéditos, se integram com perfeição ao clima pretendido para a obra.
Para tanto, a magistral fotografia se alia aos exemplares trabalhos de cenografia e montagem, conjunto esse que ganha ainda mais destaque por conta das interpretações sinceras de um elenco composto em sua plenitude por rostos até então desconhecidos.
Apesar de sua constante melancolia, Os Famosos... constitui um, hoje, raro exemplo de produção em que tudo é tão bem feito que ficamos na torcida para que seu término custe a chegar, tamanha a beleza – contida e jamais enjoativa – impressa em cada segundo de sua duração.
Talvez o único erro de Esmir Filho consista na utilização em excesso das canções de Bob Dylan, o que, na verdade, representa um pecado insignificante e extremamente compreensível, dado o presente inexpressivo e o futuro sem perspectivas de um personagem que prefere, como meio de fuga, voltar seu olhar para o passado, não obstante as inovações tecnológicas que o conectam para além das fronteiras de sua cidade natal.
O tempo dirá se a roupagem indie da obra consolidará uma tendência voltada a um nicho deveras específico ou se, em hipótese contrária, constituirá um exemplo isolado de excelência na recente produção cinematográfica nacional. Torçamos então.

Dario Façanha (texto originalmente publicado em http://www.setimacritica.blogspot.com)
COTAÇÃO - ☼☼☼☼☼

Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Esmir Filho
Elenco: Henrique Larré (Mr. Tambourine)Ismael Caneppele (Julian)Tuane Eggers (Garota)Samuel ReginattoÁurea Baptista (Mãe)Adriana Seiffert (Mãe de Paulinho) (Diego)
Estreia: 2 de Abril de 2010
Duração: 101 minutos
Curiosidade: A pessoa com quem o protagonista conversa pela Internet é o próprio diretor Esmir Filho, daí as iniciais E.F. que aparecem na tela.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Spartacus

Spartacus (Spartacus)
Estados Unidos - 1960
Direção: Stanley Kubrick

Apesar de não ter sido o primeiro filme de Stanley Kubrick, Spartacus foi a sua primeira grande produção. E grande abrange vários aspectos: a quantidade de figurantes, a longa duração do filme (184 minutos), as memoráveis atuações e o início de várias marcas registradas do diretor, que, obviamente, ainda não estavam completamente consolidadas.

O filme conta a odisséia de Spartacus (Kirk Douglas), um escravo que é comprado por um mercador para entreter multidões como gladiador. O que diferenciava Spartacus dos outros escravos era a vontade inabalável de ser livre e de fazer os outros livres. A partir desse sentimento, ele lidera uma grande fuga em busca da liberdade.

Stanley Kubrick não foi a primeira opção para a direção de Spartacus. Anthony Mann que era o diretor escalado, foi demitido logo no começo das filmagens, dando lugar a Kubrick que tinha apenas 29 anos. Até o término das filmagens o diretor enfrentou alguns problemas com produtores, com Kirk Douglas (que deu um grande apoio ao filme) e até mesmo problemas com o roteiro; talvez por isso o filme não tenha tanto a cara de Kubrick.

Spartacus é considerado até hoje um dos maiores épicos de Hollywood e da história do cinema, tanto pelo renomado elenco (Charles Laughton, Jean Simmons, Tony Curtis, Laurence Olivier etc), como pela trilha sonora, fotografia e, claro, pela direção de Kubrick. Este é um filme que além de explorar movimentos de câmera e vários outros aspectos próprios da linguagem cinematográfica, ainda consegue transmitir ao espectador uma mensagem de liberdade, luta pelos direitos e amor que poucos filmes até hoje foram capazes de fazer.


sexta-feira, 16 de julho de 2010

Meu Pé Esquerdo


O que se deve fazer, quando se nasce com uma deficiência cerebral a qual só permite o controle do pé esquerdo? Sendo que tal situação ocorreu em uma família pobre, que no caso do filme está situada na Irlanda. Quando ao nascer os médicos dizem a sua mãe que nada de bom deve ser esperado de um filho que passará sua vida toda em estado vegetativo? O que se deve fazer quando um pai não aceita ter um filho diagnosticado, como deficiente, o que o pai associa a incapacidade? Esses todos e muitos outros questionamentos são trazidos pelo filme “Meu pé esquerdo” (My Left Foot), dirigido pelo irlandês Jim Sheridan (Em Nome do Pai; Terra dos Sonhos), um filme de 1989.


Há que ser gênio para vencer tantas dificuldades e superar tantas barreiras? Não, não necessariamente, há apenas que se encontrar uma nova forma de comunicação, o que acredito ser o tema central da obra. Essa solução aparentemente simples nos é apresentada no filme por Christy Brown, personagem central dessa bela história, que foi relatada pelo próprio Christy em sua autobiografia intitulada: “Meu pé Esquerdo”. No filme Christy é interpretado maravilhosamente por Daniel Day-Lewis (O Último dos Moicanos; Sangue Negro), atuação que lhe rendeu prêmios como BAFTA, o Globo de Ouro e o Oscar.


A película de cerca de cem minutos de duração, conta a história de vida de Christy em flashbacks, a partir da leitura de sua autobiografia, pela enfermeira Mary Carr(Ruth McCabe), que deveria apenas cuidar de Christy por algumas horas, enquanto este aguarda uma homenagem em um ato beneficente promovido por Lord Castlewelland (Cyril Cusack) em sua residência. Mas Mary acaba ganhando um novo significado na vida de Christy, pouco depois.


Nascido em 1932, em uma família de cerca de dez filhos, Christy Brown, só queria provar para todos, inclusive para ele mesmo, que ao contrário do que alegava o pai (Ray McAnally), sua capacidade não era limitada por sua deficiente, o que sua mãe (Brenda Fricker), nunca duvidou. Ao longo do filme, acompanhamos a briga constante de Christy com seu próprio corpo, em busca de uma forma de expressão, que lhe permitisse ser compreendido e mostrar que também compreendia o mundo a sua volta. Técnica posteriormente aprimorada pela doutora Eileen Cobe (Fiona Shaw).


Essa louvável luta em busca da comunicabilidade, negada pelo próprio corpo é recorrente no cinema e muitas vezes baseada em histórias reais. Como no filme “O Escafandro e a Borboleta” de 2007, filme dirigido por Julian Schnabel, baseado na autobiografia de Jean-Dominique Bauby, o qual após sofrer um derrame aos 43 anos, utilizava apenas os movimentos do olho esquerdo para se comunicar. Ou mesmo do filme “Jonnhy Vai à Guerra” de 1971, dirigido por Dalton Trumbo, que conta a história do sofrimento de um soldado ferido na Primeira Guerra Mundial, que ao perder todos os seus membros e toda e qualquer forma de expressão passa a se comunicar a partir de seu conhecimento sobre o código morse. Tal história também foi baseada em um livro, o qual Trumbo adaptou ao cinema, sem o apoio de Hollywood.


E mesmo dominando os movimentos apenas de seu pé esquerdo, Christy Brown, salva a vida da mãe, faz gols, pinta obras que posteriormente ilustrarão sua autobiografia, a qual também é digitada pelo seu pé esquerdo. Ajuda a mãe a assentar tijolos, para cumprir uma antiga promessa de que Christy teria um quarto só seu, inicia uma briga em um bar, de maneira a honrar a memória do pai. Enfim, o filme nos apresenta a um homem que não deixou de amar, nem de sofre, rir ou chorar devido a sua deficiência física, um homem que não se deixou abater pelo que os outros acreditavam que a ele não era cabível. Muito pelo contrário, acredito que ao fim do filme, ficamos a nos perguntar o Christy não era capaz de fazer.


Salma Nogueira.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Lunar

Uma Questão de Escolha

Sam Bell trabalha há quase três anos em plena superfície lunar. Fincado no lado não iluminado pelo sol, o astronauta realiza a coleta de minérios que se tornaram fonte de energia aos demais terráqueos.
Por conta desse peculiar ofício, Sam não goza da companhia de mais ninguém, a não ser a do computador Gerty que, graças aos milagres da inteligência artificial, é o único “ser” capaz de trocar palavras em tempo real com o humano.
Esgotado pela rotina e pela solidão, Sam começa a padecer de delírios, numa freqüência que aumenta à medida que se aproxima o dia de seu retorno à Terra, o que culmina no sofrimento de um acidente do qual o astronauta escapa com vida, mas não sem antes se deparar com um homem de imagem totalmente semelhante a sua.
Até então Lunar (Reino Unido, 2009) se comporta como uma exemplar ficção científica existencialista; contudo, seu desenvolvimento neste diapasão é rompido – talvez para não inflamar ainda mais as inevitáveis comparações a 2001 – Uma Odisséia no Espaço – quando a opção de análise do grau de perturbação da mente humana perante o isolamento é descartada em favor de um plot sobre clonagem que, diante o rumo diverso que tomara a primeira metade do filme, custa a ser aceito pelo espectador.
Não que o tema da clonagem, ressalte-se, seja enfadonho; todavia, sua abordagem, no caso da obra em comento, acaba por frustrar expectativas maiores quanto a eleição de um viés predominantemente psicológico. De qualquer forma, é inegável que o conjunto da obra apresenta assuntos pouco explorados pelo cinema, o que, pelo bem ou pelo mal, agrega a Lunar um louvável frescor, não obstante suas deficiências.
Ademais, ainda no que tange as qualidades do filme, seria inconcebível falar do mesmo sem destacar o trabalho de Sam Rockwell que, com sua costumeira competência, atribui as exatas doses de melancolia e de agressividade exigidas por seu papel.
Embora peque por soluções fáceis e opções dramáticas discutíveis, este primeiro longa-metragem de Duncan Jones revela um cineasta nada afoito, cuja carreira, pelo visto, promete ser promissora.

Dario Façanha
(texto originalmente publicado em http://www.setimacritica.blogspot.com)

COTAÇÃO - ☼☼☼

Ficha Técnica
Título Original: Moon
Direção: Duncan Jones
Trilha Sonora: Clint Mansell
Figurino: Jane Petrie
Edição: Nicolas Gaster
Efeitos Especiais:Cinesite / The Visual Effects Company
Elenco: Sam Rockwell (Sam Bell), Kevin Spacey (Gerty - voz), Robin Chalk (Sam Bell Clone)Rosie Shaw (Little Eve), Benedict Wong (Thompson)Dominique McElligott (Tess Bell)Adrienne Shaw (Nanny) Kaya Scodelario (Eve Bell)
Duração: 94 minutos
Grande Cena: Sam Bell disputando uma partida de pingue-pongue com Sam Bell.
Curiosidade: O diretor Duncan Jones é filho do cantor e ator David Bowie. Atualmente o cineasta prepara sua nova ficção científica Source Code cujo elenco será encabeçado pelo príncipe da Pérsia Jake Gyllenhaal.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Amores Brutos


Amores Brutos - Amores Perros
México (2000)
Direção: Alejandro González-Iñárritu

Amores Brutos é um filme de mil sentimentos: quem o assiste intercala momentos de felicidade e realização, com tristezas e frustrações. A diferente narrativa, o grande sentimentalismo (de qualidade) mexicano e as inesquecíveis atuações fazem deste um dos melhores filmes atuais.

Alejando Iñarritu tem no currículo Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, todos filmes de ótima qualidade e sempre com algo a acrescentar. Os três filmes possuem a narrativa semelhante: eles fazem parte de um projeto em que o roteiro (de Guillermo Arriaga) intercala três histórias, de pessoas que nunca se viram, mas que no desenvolvimento da trama, parecem ser fundamentais para o rumo que a vida de cada um tomou. Amores Brutos foi o primeiro longa-metragem de Alejandro Iñarritu e já entrou para várias listas como um dos 1000 melhores do mundo.

As três histórias envolvem Ocátivo (Gael Garcia Bernal), dono de um cão de briga; um empresário (Álvaro Guerrero) que se separa da esposa para viver com uma modelo (Goya Toledo) e um mendigo (Emilio Echevarría) que busca ter de volta o amor da filha. Os três núcleos são intercalados, para que se tenha a impressão de que tudo acontece simultaneamente.

Amores Brutos não apresenta fantasia e idealizações, tudo o que acontece na vidas dos personagens é algo que poderia acontecer com qualquer um, o que torna tudo ainda mais fascinante. O filme também foi considerado o primeiro passo para uma verdadeira renovação do cinema mexicano; o último grande reconhecimento do país no aspecto cinematográfico foram os filmes de Luis Buñuel na fase em que esteve por lá, o que corresponde a uns 60 anos.

Amores Brutos é um filme realmente forte e que consegue falar com o espectador de uma maneira muito própria. Este, com certeza, é um dos melhores filmes da geração de novos diretores do mundo. E é impossível esquecer suas cenas, mesmo depois de ter assistido há muito tempo.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Capote


Capote (Capote)
Estados Unidos - 2005
Direção: Bennett Miller

Truman Capote foi um dos mais importantes escritores americanos de todos os tempos: começou a escrever aos 17 anos, ganhou vários prêmios importantes de literatura, criou um novo gênero literário e teve várias obras adaptadas para o cinema, entre elas o romance Bonequinha de Luxo. O novo estilo criado por Capote misturava elementos jornalísticos e literários, ficando conhecido como "new journalism".

Mas o filme não tem o objetivo de fazer um apanhado geral sobre a vida do escritor, mas se concentrar em um período de cerca de 10 anos, que é o momento em que ele escreve seu mais famoso e cultuado livro: A Sangue Frio, que relata o assassinato de uma família do interior do Kansas.

O escritor demorou 6 anos apurando os fatos para escrever o livro, que viria a conturbar sua vida pessoal e profissional; após A Sangue Frio, ele nunca mais conseguiu escrever outro livro tão reconhecido. Capote visitou o local do crime, conversou com os vizinhos da família e construiu uma amizade muito forte com Perry Smith, um dos dois assassinos. Existe até especulações sobre um caso de amor entre os dois ao longo dos anos.

A Sangue Frio é um livro cheio de polêmica e o filme consegue retratar isso com bastante eficácia. Fica claro que Capote vê Perry como algo mais que um simples personagem de seu livro, é óbvio o seu envolvimento com a história (Capote não conseguiu manter um distanciamento dos fatos, o que compromete a veracidade de sua obra).

Mas além de explorar todas as polêmicas que cercam o livro, há também a ótima atuação de Phillip Seymour Hoffman, ele realmente consegue imitar todos os jeitos do escritor, inclusive a voz; que chega até ser um pouco irritante. A atuação tão convincente o tornou vencedor do Oscar de 2006 de Melhor Ator.

Não que esse seja um filme inesquecível, mas é interessante assistir a Capote porque ilustra o processo de criação de um livro polêmico e muito aclamado, por fazer um retrato cheio de falhas do personagem principal (e não buscar sua elevação) e pela fotografia intrigante de Adam Kimmel.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A Glória de Um Covarde/Uma Aventura na África

Fazer filmes requer dinheiro. Por isso, grandes estúdios precisam de produções de apelo popular cujo retorno financeiro seja garantido, o que, por conseguinte, acarreta o eterno embate entre a arte e o comércio.
Tal realidade, frise-se, acompanha o cinema desde seus primórdios e, especificamente durante a primeira metade do século XX, tivera em Louis B. Mayer¹ o grande entusiasta do entretenimento desengajado.
Para o executivo, críticos de cinema, por exemplo, serviam tão somente para achincalhar a produção hollywoodiana e superestimar qualquer obra feita fora dos EUA. Segundo palavras do mesmo: “Assim que se diz que o filme foi feito na Itália, algum crítico de oitenta dólares por semana escreve uma grande resenha delirante chamando-o de arte. (...) Sei o que o público quer. (...) Sentimentalismo! O que há de errado com isso? Amor! Um bom romance antiquado! (...) Isso é ruim? Isso entretém. Traz o público para a bilheteria”.²
A Glória de Um Covarde (The Red Badge of Courage, EUA, 1951) representa um exemplo desse contexto, eis que, mesmo sendo um projeto capitaneado pelo aclamado diretor John Huston, L.B. Mayer sempre fora contra sua produção por entender que um tema soturno como a Guerra Civil Americana não renderia lucro algum ao seu estúdio.
O fato é que, amaldiçoado ou não por Mayer, a obra estancou em sua fase de pós-produção por conta de reprovações manifestadas pelo público de sessões testes, o que fez o trabalho de Huston ser reeditado diversas vezes, chegando a ponto de ser inclusive providenciada a dublagem de um dos atores do filme em função de um comentário negativo advindo da platéia.
John Huston, por sua vez, considerava A Glória de Um Covarde um exemplo supremo de ironia, por ser, ao mesmo tempo, seu melhor trabalho, conforme sua própria visão, e seu maior fracasso de público.
Neste passo, enquanto produtores reviravam a obra pelo avesso na tentativa de adequá-la ao gosto das massas, Huston, reconhecendo que aquele não era mais um filme seu, pulou fora do barco para adentrar num outro chamado African Queen.
Explique-se: o cineasta havia se comprometido a dirigir o projeto Uma Aventura na África para sua própria companhia – a Horizon Pictures - local onde dispunha de total liberdade para filmar graças ao fato de seu sócio, o produtor Sam Spiegel, realizar a captação de verbas sem a colaboração de estúdios.
Assim, Huston partiu rumo à África deixando para trás A Glória de Um Covarde e seus problemas de finalização – além do salário semanal oriundo do contrato que firmara com a MGM -, para, a partir de então, dedicar-se a roteirização e direção de Uma Aventura na África.
Conhecido por suas excentricidades, Huston via nesse novo trabalho - graças ao apelo da história e de seu elenco - a possibilidade de, enfim, obter muito lucro, mas também, e principalmente, a oportunidade de caçar elefantes no continente africano e de se divertir ao lado do amigo Humprey Bogart, ator protagonista do filme, em locações exóticas como as do Congo Belga.
Todavia, se por um lado o cineasta ficara livre da sombra dos executivos, por outro fora obrigado a lidar durante as filmagens com intempéries de toda espécie, afinal, condições climáticas interferiam negativamente no nível das águas, praticamente toda a equipe técnica fora acometida de enfermidades, Katherine Hepburn, estrela do filme ao lado de Bogart, quase fora morta após uma debandada de elefantes, entre outros exemplos...
Vencidos os obstáculos, Huston retornou aos EUA quando A Glória de Um Covarde, após quase um ano de pós-produção, já havia estreado oficialmente nos cinemas. Sem jamais ter assistido a versão final do filme, Huston experimentou dentro de pouco mais de um ano uma passagem do inferno ao céu, pois enquanto o trabalho supracitado se confirmou como um retumbante fracasso de bilheteria, Uma Aventura na África, de forma totalmente diversa, além de se confirmar como seu maior sucesso de bilheteria ainda gozou de grande credibilidade perante público e crítica - o que culminou, por fim, na premiação com o Oscar de melhor ator para Humprey Bogart.
Para muitos executivos, entre eles Louis B. Mayer, John Huston optara por fazer filme de arte com o dinheiro alheio, ao passo que deixara para sua própria companhia a realização de um filme de estrelas, cujo retorno financeiro era garantido.
Neste sentido, é difícil crer em má-fé do cineasta, afinal, não há como visualizar um demérito de sua atuação em qualquer dos trabalhos mencionados. A Glória de Um Covarde ensejará sempre a dúvida sobre aquilo que poderia ter sido caso a visão de Huston fosse respeitada, contudo, o resultado apresentado após as controvérsias dos bastidores, revela um trabalho irregular, mas que em seu conjunto consegue se firmar como uma adaptação cinematográfica mediana mas jamais descartável – como L.B. insistia em tratá-la.
Outrossim, não resta dúvida de que uma vez aprendidas as lições do fracasso, Huston dirigiu Uma Aventura na África imbuído do evidente intuito de agradar, o que consegue fazer sem qualquer manipulação. Seu grande trunfo, neste diapasão, consiste em extrair despojadas interpretações de seu casal de protagonistas e ainda colocá-los em situações cômicas e constrangedoras que se tornam ainda mais curiosas por envolverem atores que já eram há muito tempo ícones do cinema.³
Logo, a aprovação ou reprovação do público para com um produto não deverá em qualquer hipótese servir como elemento único a definir a qualidade do último. Destarte, a distinção entre os cinemas autoral e comercial estará sempre em voga, fomentando debates e críticas. Resta-nos torcer, então, pelo equilíbrio dos cinemas para que, desse modo, seja preservado algo um tanto quanto menosprezado pela indústria nas últimas décadas: o comprometimento perante a inteligência do espectador.
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(1) Na condição de fundador, junto a outros, dos estúdios MGM e de criador do chamado star system.
(2) Lilian Ross. Filme. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 237.
(3) Vale lembrar, ainda, que Huston abdicou de todo e qualquer lucro sobre o que fora amealhado por Uma Aventura na África, quando desfez sua sociedade com Sam Spiegel logo em seguida ao lançamento do filme nos cinemas. O motivo do racha: a descoberta de negociações escusas do produtor e levantamento de suspeitas sobre a origem do dinheiro levantado para a produção de seus filmes.

Dario Façanha (texto originalmente publicado em http://www.setimacritica.blogspot.com)

COTAÇÕES:
A Glória de Um Covarde - ☼☼☼
Uma Aventura na África - ☼☼☼☼

Ficha Técnica - A Glória de Um Covarde
Título Original: The Red Badge of Courage
Direção: John Huston
Roteiro: John Huston e Albert Band
Elenco: Audie Murphy, Bill Mauldin, Andy Devine, Royal Dano, Arthur Hunnicutt, John Dierkes
Ano: 1951
Duração: 69 minutos

Ficha Técnica - Uma Aventura na África
Título Original: The African Queen
Direção: John Huston
Roteiro: James Agee, John Huston, baseado na obra de C.S. Forester
Elenco: Humphrey Bogart (Charlie Allnut)Katharine Hepburn (Rose Sayer)Robert Morley (Rev. Samuel Sayer)Peter Bull (Capitão da Louisa)
Ano: 1951
Duração: 105 minutos

sábado, 3 de julho de 2010

A Ceia dos Acusados

A Ceia dos Acusados (The Thin Man)
Estados Unidos - 1934
Direção: : W.S. Van Dyke

Nick Charles (William Powel) é um detetive que está afastado de casos criminais desde que se casou com Nora Charles (Myrna Loy). E assim procurar manter-se até que se vê sem saída para resolver o caso de um magnata que desapareceu. A Ceia dos Acusados deu início a uma série de filmes de "casais detetives", tendo aí talvez o maior motivo para ser considerado uma referência.

A Ceia dos Acusados não foi um filme que permaneceu atual, até porque as tramas que envolvem investigações hoje em dia, em sua maioria, são velozes e contam com muitos recursos tecnológicos. Diferente deste filme da "era de ouro de Hollywood", que aposta na comédia, boas atuações e criatividade para solucionar o desaparecimento.

E por falar em atuações, elas merecem três destaques: William Powel, Myrna Loy e o cão Asta (o cachorro é usado, neste caso, para quebrar alguns momentos de tensão no filme ou apenas como recurso de comédia). Já William Powel é a melhor atuação de A Ceia dos Acusados; sua interpretação de um detetive que procura estar afastado do crime funciona muito bem ao lado de Myrna Loy. Os dois tem um humor muito próprio, com bons diálogos e conversas baseadas, acima de tudo, no sarcasmo. Esta é a principal marca da comédia dos dois. Eles transparecem uma ótima ligação para o espectador e um casamento atípíco: enquanto ele pretende ficar afastado de qualquer problema, a esposa o influencia a todo momento a retormar a vida de detetive, inclusive o ajudando na solução do caso.

Mas o verdadeiro clímax do filme está na cena final, assim como em inúmeras produções que seguiriam este filme, e que explica o porque da escolha deste nome na tradução: Nick, na dúvida de quem é o culpado, resolve juntar todos os suspeitos em um jantar e deixá-los cara a cara com suas mentiras.

A Ceia dos Acusados é uma comédia deliciosa. É o retrato de uma época muito marcante do cinema, um período em que os filmes americano explodiam em referências para diretores no mundo todo. E vale a pena assistir por ter a trama baseada nas histórias de Dashiell Hammett, o mesmo que inspirou o roteiro de "Falcão Maltês", um clássico filme noir. E para se divertir assistindo uma comédia leve, interessante e de qualidade.