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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sob a Areia



Sob a Areia (Sous le Sable)
França - 2000
Direção: François Ozon

Particularmente, um dos principais aspectos que dá sustentação a um filme é a criação de uma atmosfera própria; e Sob a Areia consegue fazer isso brilhantemente. O diretor François Ozon consegue inserir o espectador em cada fotograma do filme, como se ele pudesse interagir de alguma forma com os atores.
Sob a Areia conta a relação de um casal, Marie (Charlotte Rampling)e Jean (Bruno Cremer), que são casados há 25 anos e sempre passam suas férias em uma cidade no sudoeste da França. Em uma das vezes, Jean deixa a esposa tomando sol e sai para nadar. Porém, ele não volta à areia e Marie fica desesperada sem saber o paradeiro do marido. Para "fugir" da dúvida do que aconteceu com Jean, a esposa finge que ele ainda faz parte de seu cotidiano. Vive como se ainda fosse uma mulher casada e com o marido presente em todas as horas do dia.
A transformação da personagem de Charlotte Rampling é um dos aspectos mais interessantes do filme. Ela, que era uma mulher fria e calada, passa a ser mais extrovertida, permitindo até algumas atitudes que não tomaria enquanto era casada. A cena que mais esclarece essa mudança é a de quando tem sua primeira relação sexual após o desaparecimento do marido. Enquanto estão transando, Jean assiste a tudo sem fazer nenhuma reprovação.
Com o desenrolar da trama, o espectador adquire um sentimento de dúvida implantado pelo diretor: Jean fugiu? se suicidou?. Este é o principal elemento do filme: o mistério. O roteiro misterioso desenvolve-se ao mesmo passo que a fuga dos fatos de Marie. Já que ela quer fugir da verdade, ela é mostrada subjetivamente, o que permite que o espectador tome suas próprias conclusões.

Tentei achar o trailer com a legenda em português, mas não encontrei. Mas mesmo assim é bom assistir para ter idéia da atmosfera que o diretor criou.



Carolina Klautau

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Triunfo da Vontade


O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens)
Alemanha - 1935
Direção: Leni Riefenstahl

Talvez Leni Riefenstahl seja uma das diretoras mais polêmicas de toda a história do cinema. Isso porque alguns de seus filmes mais famosos foram encomendado por Adolf Hitler para fazer propaganda de seu estado nazista. Olympia e O Triunfo da Vontade são dois desses exemplos.
Em O Triunfo da Vontade ela documenta o VI Congresso Nacional-Socialista ocorrido em Nuremberg (fato curioso, pois com o fim da Segunda Guerra Mundial, Nuremberg foi a cidade que sediou o tribunal que julgou os 24 principais criminosos de guerra da Alemanha).
Tudo que é mostrado no filme é grandioso e magistral: os desfiles, os discursos, as paradas... A diretora utiliza o contra-plongée para enfatizar a grandiosidade dos políticos nazistas perante o público que assistia seus discursos. O filme também aposta na fala de jovens soldados para engrandecer o estado nazista.
Os grandes planos-sequências na filmagem das paradas e dos desfiles mostra milhares de pessoas que ficavam na expectativa para ver o führer mais de perto. Percebe-se também a expressão de emoção da população com a chegada de Hitler em um avião na primeira cena do filme. Esta cena, por sinal, é uma referência de filmagem até hoje para muitos cineastas.
Na tentativa de mostrar a grandiosidade da Alemanha de Hitler, Leni Riefenstahl acaba prolongando algumas tomadas que poderiam ser menores. Quase no final do filme, ela mostra um desfile de oficiais que dura quase 20 minutos. Porém, estas tomadas são perfeitamente compreensiveis quando o espectador sabe da real intenção da diretora.
Hoje, passados mais de 60 anos do fim do regime nazista o filme choca por ver a emoção dos alemães em apoiar alguém com idéias tão preconceituosas e depreciativas. Porém, a diretora atinge sua missão em mostrar ao espectador que este regime era apoiado por milhões de cidadãos que encontravam-se em desespero para ver seu país crescer e tornar a ser a potência que era antes da Primeira Guerra Mundial.

Abaixo, a primeira e talvez principal cena do filme:




Carolina Klautau

terça-feira, 6 de abril de 2010

Escravos do Rancor

Escravos do Rancor (Abismos de Pasíon)
México - 1954
Direção: Luis Buñuel

Luis Buñuel encaixa-se no movimento surrealista do cinema. Os surrealistas tinham como proposta a transformação do mundo, ao invés de sua interpretação. Para eles, a arte não deveria ser uma parcela de nossas experiências, mas uma síntese de todos os aspectos de nossa existência. É possível perceber esse movimento em dois filmes de Buñuel: Um Cão Andaluz e A Idade Do Ouro.
Mas o diretor não realizou apenas filmes inseridos na estética surrealista. Durante os anos 50, passou um tempo filmando no México e fazendo filmes mais comerciais. "Escravos do Rancor" faz parte desta "fase mexicana" do diretor, ao lado de filmes como Os Esquecidos, O Alucinado, Robinson Crusoe e outros.
Mas "Escravos do Rancor" não é um filme que referencia a obra de Buñuel. Comparado com Os Esquecidos, por exemplo, é um filme fraco: foge da característica do diretor de fazer o espectador refletir após assistir a obra.
A trama do filme gira em torno de um filho adotivo que era rejeitado quando criança, e volta, já adulto e rico, para vingar-se daqueles que o tratavam mal. Ele também pretende conquistar o amor de sua irmã, que já está casada.
Os personagens intercalam uma paixão brutal com o desapego e a indiferença. Em alguns momentos tem-se a impressão de que o amor é tudo em suas vidas, já em outras sequências o que parece é que o que realmente importa é o egoísmo de cada um, o fato de botarem-se sempre em primeiro lugar.
É possível afirmar que "Escravos do Rancor" foi uma pequena queda na filmografia do diretor, já que antes deste filme, ele já tinha feito obras brilhantes e intrigantes.

Carolina Klautau (http://www.usinecinematographe.blogspot.com)